Ned Ludd ou a dialética do helicóptero

A questão anarquista é sempre de princípios. Talvez isso distingua os anarquistas de muitos libertários. Talvez seja este seu aspecto inocente e, por vezes, dogmático. Mas pode ser bem interessante como medida para a vida.

Bem, comecei a ler dois livros que me decepcionaram sobremaneira. Um é o Urgência das ruas, de Ned Ludd, e o outro, A doutrina do choque, de Naomi Klein. O primeiro peca pela generalidade, ou melhor, pela “panorâmica”. É quase um vôo de helicóptero por cima dos movimentos Black Block e Reclaim the streets, dentre outros. Vejamos uma dessas revoadas de idéias vazias:

Enquanto o RTS, os Black Blocks e os imensos e organizados distúrbios que acompanham as tentativas de encontro dos gestores do capitalismo mundial têm sido um fenômeno essencialmente do Norte (EUA, Canadá e Europa), algumas questões e polêmicas levantadas em torno dessas ações, e do Black Block em especial, não são novas e concernem também ao Sul.

Insisti e continuei lendo o livro, que chega a falar de Sem-Terra e movimentos camponeses indianos quase como irmãos. É a dialética do helicóptero em ação, que vê a importância na força geral, vista do monte, como um calderão rebelde e meio romântico, gerador de resistências anticapitalistas.

Enfim, fiquei pensando que o interessante mesmo é o pequeno movimento, visto de dentro, e principalmente vivido no seu tempo. Participo da bicicletada, adoro pensar nas alternativas libertárias para educação, na luta contra os manicômios, contra as corporações, no fortalecimento da pequena agricultura, na valorização do espaço local… Mas sinceramente, a única coincidência entre eles são os princípios, muitos deles anarquistas. Muitos são contra a centralização e a hierarquia, apostam na ação direta, são acéfalos e temporários, estratégias que têm sua história. Tentar achar algo comum entre um vegetariano e um programador de software livre, por exemplo, pode ser apenas uma ação de marketing, se não forem destacados os princípios, o que não cria um inimigo comum muito menos uma causa única.

Sinto que o Ned Ludd virou pedra, sofreu a ação da medusa ao tentar achar a relação, a simultaneidade, um Zeitgeist. Não fez o trabalho de historiador, embora recolha bons documentos.

Lembrei então do Dao De Jing, que é lido anacronicamente por alguns anarquistas, quase borgeanamente, talvez por causa do Hegel, que também foi um grande leitor do Laozi. A questão é a divisão do mundo em teoria e doutrina. E que questão! É só pensar no Nietzsche e na sua já quase vulgar crítica à vontade de poder. Dá pra remontar ao Aristóteles, talvez o pai da artimanha, e ler lá na metafísica aquela divisão para as ciências: artes práticas, poéticas e teóricas. As teóricas são pra ele a matemática, a física e a teologia.

Em tempo: um amigo, que estuda sociologia e é bom de cerveja, me disse que o Robert Kurz critica os movimentos “antiglobalização” porque não propõem uma nova teoria do valor. O que será isso? Interessante, mas não deixa de me parecer mais uma dialética do helicóptero, talvez a mais refinada delas.

Todo teórico sempre pensou mais do que ele próprio sabia, e não seria sério chamar de teoria uma teoria isenta de contradições. Assim, não apenas livros individualmente têm seus destinos, mas também as grandes teorias. Entre uma teoria e seus receptores, tanto adeptos quanto oponentes, sempre se desenvolve uma relação de tensão na qual se manifesta a contradição interna da teoria, a partir do que, só então, será gerado conhecimento. [R. Kurz, As leituras de Marx no s. XXI Fonte]

O artigo, apesar do trecho acima, vale uma leitura rápida.

Uma resposta para “Ned Ludd ou a dialética do helicóptero”

  1. ola, devo dizer primeiramente como cheguei ao seu blog. Achei uma entrevista do Ned ludd em um site, provavelmente o homem que gravou a entrevista nada tinha haver com o movimento ludista. Fiquei totalmente não afim de ler o livro “apocalipse motorizada”, você já leu? Depois eu vi aqui seu comentário sobre o “urgência das ruas” também nada incentivador. Devo dizer que adorei sua definição para dialética do helicóptero, alias ótimo termo, vou adotá-lo se me permitir ! Alias, nem me apresentei, meu nome é Bettina, moro no Rio, eu tenho um blog também, mas por enquanto não tem muita coisa lá. Vamos trocar idéia, o que você acha? Meu email é b3zinha@hotmail.com Beijos

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