Parto normal ou cesárea?

“Quando você vai ter um filho, a melhor coisa é procurar um médico de confiança.” Bom, sinto dizer, mas isso não é suficiente. Um médico nunca joga sozinho. Ele é parte de um sistema complexo de forças, e é preciso levar em conta as empresas seguradoras, os hospitais, laboratórios e empresas farmacêuticas. No caso dos obstetras, essa distorção se traduz no número de cesáreas desnecessárias praticadas no país. O Brasil é campeão na área. Na rede privada, parece que 95% dos partos são cirúrgicos. Na rede pública, a coisa chega “somente” a 30%. Pelo que li por aí, a Organização Mundial de Saúde recomenda que o procedimento não passe de 15%. Mar por que isso? As ceráreas são indicadas apenas para alguns casos de complicação, quando o nenê por exemplo “não virou”, quando ele é descomunal, quando a mãe é hipertensa etc. etc.

A maioria das cesarianas são realizadas por progressão lenta do trabalho de parto. Dentre outras indicações temos também o sofrimento fetal agudo, as desproporções entre o tamanho do feto e da bacia óssea materna, placenta prévia, lesão por herpes ativa no momento do trabalho de parto, prolapso de cordão, feto em posição anômala, falha de indução quando se há indicação de interrupção de gravidez. [Fonte]

Os médicos sabem bem disso, mas eles ganham pouco dos seguros para fazer os partos normais, que podem durar até 24 horas. Além disso, têm uma vida dupla, pulando do hospital para o consultório, e tal regime inviabilizaria a agende deles. Nada mais “normal” do que enfileirar as mulheres na parte da manhã, em cirurgias marcadas, para facilitar a vida de todo mundo. O problema é que a mulher demora 30 dias para se recuperar de uma cesárea, tem 11 vezes mais chance de pegar uma infecção hospitalar, três vezes mais chance de morte[fonte], e o nenê, pasme, corre muito mais riscos de ter problemas respiratórios. Enfim, não é preciso ser médico para perceber que cortar 7 tecidos é mais invasivo que deixar o bebê sair por um canal existente. Minha tristeza foi perceber que nosso “médico de confiança” fez todo discurso pelo parto normal, e numa bela tarde marcou a operação. Daí então começaram as lendas urbanas:

“Você não vai entrar em trabalho de parto.” Bom, na autoridade de fã do Animal Planet posso falar que nunca vi um programa sobre prenhas entaladas.

“Mas se você deixar, o nenê poderá ter sofrimento fetal.” Sofrimento fetal se detecta pelo batimento cardíaco do nenê. E dá para escutar o batimento até com um copo.

“O nenê poderá comer o mecônio.” “Ai, meu filho vai comer cocô e apodrecer!” Bom, lembre-se que o líquido aminiótico é xixi de nenê, e se ele estiver bem (com batimento cardíaco regular) ele engole qualquer coisa, digere e manda pra fora. O problema é mecônio associado ao sofrimento fetal, porque nesses casos o nenê pode aspirar o mecônio e ter complicações respiratórias no pós-parto. Mas o duro de ouvir é que, se ele estiver em sofrimento fetal, uma cesárea só aumenta o risco de ele aspirar o mecônio.

“O nenê passou do ponto.” Caramba, quantas semanas pode ter uma gestação? Pelo que vi, o termo são 40 semanas e são possíveis mais duas sem grandes riscos.

Há um bocado de outras coisas, como “dores mortais do parto”, “parto normal é impossível para mãe que já fez uma cesárea”, “a maldição do fórceps”…

Depois de tanta pressão psicológica foi difícil encararmos a situação e decidir mudar de médico praticamente no dia do parto. Foi quando me perguntei: como funciona nos países onde o parto normal é realmente normal? Nesses lugares o trabalho do pré-natal e o do nascimento são coisas bem distintas, executadas por profissionais diferentes, pois seria impossível conciliar as jornadas de trabalho. No desespero, caímos no Gama, singela contrarreação ao sistema das cesáreas. Lá nos informaram que nem todo hospital gosta de parto normal. E infelizmente, para garantir, o melhor seria levar a equipe toda, médico, obstetriz, anestesista e… até um pediatra, porque os procedimentos são muito diferentes. Dito e feito: o nenê resolveu nascer às 22h e quando chegamos ao hospital, a tranquilidade era tanta que estranhei. “A maioria das mães têm filho até às 18h horas”, me disse a enfermeira. E nós éramos os únicos do centro cirúrgico.

Nossa história felizmente acabou bem. O nenê nasceu muito bem, 24h após o horário da cesárea, a qual felizmente cabulamos, depois de ouvir os vaticínios do médico: “Seu filho não nascerá”.

Não sou médico e possivelmente as informações que coloquei aqui são muito discutíveis. Mas percebi que até mesmo para ter filho é preciso entender que estamos diante do fetiche do mercado, cuja lógica é a da produtividade, e portanto, cabe não acreditar de cara nas verdades científicas.

Para quem quer ter parto normal,  sugiro que se informe desde o início e tenha claro que nesse nosso sistema, não existe gente “meio” à favor de parto normal. Leve em conta também que pior do que uma cesárea é uma cesárea marcada, pois o simples fato de o nenê entrar em trabalho de parto já é garantia de muita coisa para ele.

Separei uns links aqui que talvez sejam úteis para quem quiser se informar:

http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?tool=pmcentrez&artid=1479438

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102001000200015

http://pph.a-little-wish.co.uk/media-articles/caesarean-mothers-triple-hysterectomy-risk-for-next-pregnancy.aspx

http://www.hospitaldocoracao.com.br/conteudo/noticia.php?tx=YToxOntzOjI6ImlkIjtzOjM6IjQ2NyI7fQ==

http://www.portaldafamilia.org/artigos/artigo086.shtml

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8 Respostas to “Parto normal ou cesárea?”

  1. hey parabéns pela resistencia! deve ter sido dificil mesmo ter idi contra a pressao emocional do cara!

  2. Puxa, assistimos este filme antes de ontem!

  3. Que labuta, hein? Passei por essas e outras. A solução talvez seja trazer as parteiras de volta.

  4. muito bem, jorge!
    achei muito macha a decisão de vocês de trocar de médico na última hora, e a recompensa foi que o Ulisses nasceu lindo! vitória da vagina sobre o bisturi! 🙂

  5. bravo!

  6. nitchka10 Says:

    Clara, Mantovani, Claudia, Graz

    Obrigado pelos comentários. No Brasil temos que militar até pra isso. A Claudia sabe como funciona na Alemanha, mas mesmo lá a coisa está mudando bastante rápido e as cesáreas já são 30% dos partos.

    Bjs e abraços, J.

  7. Jorge e Grazi em primeiro lugar parabéns. Mudar de obstetra na hora do parto não é pra qualquer um.
    E em segundo, para proteger futuros pais do mesmo perrengue nós apontaríamos nome e CRM do médico vigarista.
    Quem foi? Onde atende?
    Rola processar o cara?

    Abraços e beijos no Ulisses,
    família Medina.

  8. nitchka10 Says:

    Murillo, caro, o médico é apenas uma pequena peça num jogo complexo. É preciso mesmo conscientização pra mudar esses números absurdos.
    Abraço em toda turma (especial na picola Julia)

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