Roberto Mangabeira Unger

Roberto Mangabeira Unger tem sotaque. E talvez seja essa uma das poucas coisas que sabemos sobre ele. Os mais informados sabem talvez que o professor leciona em Harvard e que trabalhou no governo. Ao menos, é isso que a The Economist sabe ou finge saber. Pois caiu-me nas mãos um artigo do filósofo americano Richard Rorty sobre o “filósofo brasileiro” (como o descreve o colega), no qual a obra de Unger é apresentada como uma alternativa esperançosa à Escola do Ressentimento, a saber, o pensamento francês pós-moderno. Exageros à parte, resolvi ler algo e comprei o livro Falsas necessidades, publicado em 2005 pela Boitempo. A princípio pensei se tratar de um Fukuyama universalista, um liberal. Mas só pelo fato de ele usar com frequência a palavra “sociedade” lhe desabonaria a alcunha, ao menos perante os colegas neoliberais. Alguns pontos centrais: a) a reflexão sobre o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento de instituições nos países pobres vale também para se pensar criativamente algumas saídas para os países desenvolvidos. Afinal, cresce entre eles também a desigualdade e a abstração descompromissada dos mecanismos de geração de renda, como se provou com a recente crise do sistema financeiro. b) há um vazio ideológico, desde a queda do muro de Berlim, e a esquerda marxista não formulou alternativas. E como a guarda se abriu, o pensamento único aparentemente se impôs.

A ideia de que o mundo caminha vagarosamente rumo a um conjunto homogêneo formado por práticas adequadas e instituições possíveis faz com que essa perspectiva possa parecer plausível. Ela diminui a necessidade que se sente de se inferir práticas e instituições específicas a partir de concepções abstratas. Eu me refiro à democracia e ao mercado.

A tranquilidade política continuará a justificar modelos racionais de reconstrução, até que surjam problemas verdadeiros no mundo real. E não há necessidade de que seja uma grande questão, a exemplo de uma guerra de proporções mundiais ou de uma depressão econômica mais aguda. Basta tão-somente uma crise de dimensões menores, como a instabilidade financeira que se propagou no biênio 1997-1999.

Mas será Unger mais um tecnocrata de fé cega no Estado? Acho que não. Curiosamente, a ênfase (e talvez a parte mais difícil de ser defendida) está no indivíduo.

Por política, nesse cenário, eu me refiro tanto ao

mais limitado conceito de luta pela obtenção e uso do poder governamental, como aos mais amplos sentidos de conflito, controvérsia e compromisso em torno dos termos de relacionamento práticos, emocionais e cognitivos que vivenciamos uns com os outros. Entre esses dois polos de significa encontra-se um sentido intermediário tão central ao argumento desde livro: a política é ação prática e espiritual para reprodução, refinamento, reforma ou remodelagem dos arranjos insitucionais e das crenças arraigadas que informam as rotinas da sociedade.

É uma política total, que pode virar piada na boca de um adorniano, que gargalha diante do conceito universal de sujeito. Mas se considerarmos como potência o pensamento americano sobre a liberdade, sobre o individualismo e, algumas experiências americanas anarco-individualistas e também liberais heterodoxas (quem conhece os anarco-capitalistas americanos?), que só foram possíveis nos EUA, as teorias e sobretudo a praxis de Unger passam a ter mais sentido.

Por um lado, trata-se de liberalismo radical. Um liberalismo que sacrifica dogmas liberais sobre insituições políticas e sociais. Dogmas que os liberais têm tradicionalmente vinculado às expectativas sobre as possibilidades humanas. Por outro lado, trata-se de socialismo não estatal, outorgando conteúdo distindo e controverso à concepção de economia de mercado adaptável a princípios socialistas, hoje ideia tida como vazia de sentido.

R.M.U. na prática

No Brasil, Mangabeira participou recentemente do governo Lula, como ministro de Assuntos Extragégicos, entre 2007 e julho de 2009. Sua preocupação maior parece ter sido a Amazônia, cujo Plano Amazônia Sustentável (PAS) delineou uma verdadeira tarefa de institucionalização do solo, contrária à posição do ministério do meio ambiente.

A política de cooperação entre as nações em desenvolvimento, principalmente entre os países do Sul parece ser importante também para ele, o que me faz pensar que a formação de um bloco denominado BRIC não é apenas uma abstração do banco Goldman Sachs. Desde o início do governo Lula, o Itamarati mudou o eixo Norte-Sul para o pleonástico Sul-Sul, ainda que Rússia esteja arriba. E é muito provável que este discurso todo tenha relação com as “alternativas de globalização” propostas por Unger.

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