Poder para enganar e ser enganado

 

Tá pensando o quê?

Tá pensando o quê?

 

O ser humano tem mesmo uma capacidade infinita de enganar e ser enganado. Certa vez, a bispa de uma igreja que não queremos lembrar o nome sorteou um carro para os fiéis e adivinhem quem ganhou… Ela! Nada mal, não fosse ela dizer que tinha sido o próprio Deus que viu nela a graça alcançada. Nada de sorte; predestinação.

As últimas enganações do mês não são nada menores. Tenho visto na TV, no horário da novela, a propaganda do governo do Estado sobre a reforma da marginal.  “São Paulo vai andar e respirar melhor”. Algo estranho… Derrubaram milhares de árvores, deformaram o desenho do plano Ulhôa Cintra contra a lei, provavelmente numa de depois a gente vê, e para compensar a atitude contra as leis da física que preveem que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, plantaram árvores em outro lugar. Como no caso da bispa, até aí estamos no jogo político de cativação da abandonada classe média motorizada e imóvel no trânsito. Mas ontem li no jornal Valor que o PSDB decidiu investir em obras estruturais de transporte como um programa social. “As pessoas vão chegar mais cedo em casa, ter mais tempo de ficar com a família”, declara um paspalho qualquer do partido. Incluindo as obras do metrô, atrasadas há no mínimo uma década, o entimema ainda não faz sentido, porque medidas sociais incluem transferência de renda e não transferência de corpos pela cidade. E pelo que sei, as passagens vão subir.

Na versão da prefeitura, ainda mais aterrorizante, as árvores justificatórias são trocadas por moradias: “A proposta é de requalificação de toda a área, o que envolve a construção de 10 mil moradias e um túnel que fará a ligação da avenida com a rodovia dos Imigrantes.” [Fonte] Para quem quiser entender melhor a operação, sugiro a leitura  do último posto do Ecologia Urbana.

Enfim, mas a capacidade de enganar e ser enganado não é privilégio de São Paulo. Recentemente o ministro do meio ambiente e o presidente Lula declararam um estabelecimento de metas para o controle de emissão de carbono. Fala-se em redução do desmatamento da Amazônia em 80% e do cerrado, 40%. Mas não é na “franja agrícola”, entre o cerrado e o território amazônico que estão os principais focos de emissão? E o bioma do cerrado foi oficialmente legado à soja? Bom, a única coisa que justifica isso é que a amazônia tem um apelo, digamos, mais roliudeano. O duro é constatar que até mesmo a questão do aquecimento global seja talvez uma rifa-de-bispa…

A discussão das causas do aquecimento global também desviam o assunto em pelo menos dois sentidos preocupantes. O primeiro, refere-se ao não combate à vulnerabilidade das populações aos efeitos das mudanças climáticas (já que o aquecimento global, atropogênico ou não, é um fato consumado). O outro é bater na tecla do aquecimento e esquecer-se por completo das questões toxicológicas das emissões industriais. Ao invés de discutir-se tais aspectos, o que observa-se é uma verdadeira guerra de “egos”, onde as duas vertentes preferem ficar discutindo quem está com a razão do que tomar medidas realmente efetivas.

Outras questões também podem ser colocadas, uma delas é o caso Amazônia. A mídia e os políticos desviam toda a atenção para o “pulmão do mundo” enquanto o cerrado, aí no Centro Oeste, é devastado sem dó nem piedade. A Mata Atlântica então coitada, é melhor nem comentar. E Norman Myers há algum tempo já definia esses dois ecossistemas como hotspots (áreas de conservação e preseração prioritárias). E a questão do saneamento básico? Os lixões continuam aí pelo país. Órgãos ambientais estaduais e federais se gabam por implantarem aterros “controlados”(que nada mais são que enterros de lixo, uma vez que o tratamento de efluentes não existe nesse tipo de aterro). Tratamento de esgoto efetivo está longe de ser uma realidade na maior parte dos municípios.  [Carlos Pacheco, Fonte]

Mas como estamos no plano das verossimilhanças e não das verdades, que é o da política e também da enganação, gostaria de lembrar outro episódio in-crível. Lembro-me de um dos últimos gestos da então ministra Marina Silva, um voo panorâmico de helicóptero junto com autoridades, para fazer o reconhecimento do avanço da fronteira agrícola. Digamos, as fotos de satélite do Google ou da Embrapa talvez sejam mais apropriadas. Achei um vídeo da ex-ministra explicando a operação aqui.

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2 Respostas to “Poder para enganar e ser enganado”

  1. gostei do post, jorge.
    o que acho engraçado nestas práticas de “revitalização urbana” é que, em geral, um efeito é combatido como causa.

    ainda não me convenceram de que o “clima” é um problema ou de que “há problemas com o clima”. problema é o sistema.

    bom, enfim, ou não. =]

  2. Para completar o panorama de hipocrisia que você desenhou talvez valesse comentar também o episódio da inundação dúbia no Jardim Romano e todo o jogo de influências que afinal um evento como a Copa traz para a cidade.

    E se posso perguntar, por que o “amador”? 🙂
    Notei uns links interessantes na sua página. Frequenta o Ay?

    @cactusland

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