Archive for the livros Category

Roberto Mangabeira Unger

Posted in anarquismo americano, Brasil, livros, meio ambiente on agosto 23, 2009 by nitchka10

Roberto Mangabeira Unger tem sotaque. E talvez seja essa uma das poucas coisas que sabemos sobre ele. Os mais informados sabem talvez que o professor leciona em Harvard e que trabalhou no governo. Ao menos, é isso que a The Economist sabe ou finge saber. Pois caiu-me nas mãos um artigo do filósofo americano Richard Rorty sobre o “filósofo brasileiro” (como o descreve o colega), no qual a obra de Unger é apresentada como uma alternativa esperançosa à Escola do Ressentimento, a saber, o pensamento francês pós-moderno. Exageros à parte, resolvi ler algo e comprei o livro Falsas necessidades, publicado em 2005 pela Boitempo. A princípio pensei se tratar de um Fukuyama universalista, um liberal. Mas só pelo fato de ele usar com frequência a palavra “sociedade” lhe desabonaria a alcunha, ao menos perante os colegas neoliberais. Alguns pontos centrais: a) a reflexão sobre o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento de instituições nos países pobres vale também para se pensar criativamente algumas saídas para os países desenvolvidos. Afinal, cresce entre eles também a desigualdade e a abstração descompromissada dos mecanismos de geração de renda, como se provou com a recente crise do sistema financeiro. b) há um vazio ideológico, desde a queda do muro de Berlim, e a esquerda marxista não formulou alternativas. E como a guarda se abriu, o pensamento único aparentemente se impôs.

A ideia de que o mundo caminha vagarosamente rumo a um conjunto homogêneo formado por práticas adequadas e instituições possíveis faz com que essa perspectiva possa parecer plausível. Ela diminui a necessidade que se sente de se inferir práticas e instituições específicas a partir de concepções abstratas. Eu me refiro à democracia e ao mercado.

A tranquilidade política continuará a justificar modelos racionais de reconstrução, até que surjam problemas verdadeiros no mundo real. E não há necessidade de que seja uma grande questão, a exemplo de uma guerra de proporções mundiais ou de uma depressão econômica mais aguda. Basta tão-somente uma crise de dimensões menores, como a instabilidade financeira que se propagou no biênio 1997-1999.

Mas será Unger mais um tecnocrata de fé cega no Estado? Acho que não. Curiosamente, a ênfase (e talvez a parte mais difícil de ser defendida) está no indivíduo.

Por política, nesse cenário, eu me refiro tanto ao

mais limitado conceito de luta pela obtenção e uso do poder governamental, como aos mais amplos sentidos de conflito, controvérsia e compromisso em torno dos termos de relacionamento práticos, emocionais e cognitivos que vivenciamos uns com os outros. Entre esses dois polos de significa encontra-se um sentido intermediário tão central ao argumento desde livro: a política é ação prática e espiritual para reprodução, refinamento, reforma ou remodelagem dos arranjos insitucionais e das crenças arraigadas que informam as rotinas da sociedade.

É uma política total, que pode virar piada na boca de um adorniano, que gargalha diante do conceito universal de sujeito. Mas se considerarmos como potência o pensamento americano sobre a liberdade, sobre o individualismo e, algumas experiências americanas anarco-individualistas e também liberais heterodoxas (quem conhece os anarco-capitalistas americanos?), que só foram possíveis nos EUA, as teorias e sobretudo a praxis de Unger passam a ter mais sentido.

Por um lado, trata-se de liberalismo radical. Um liberalismo que sacrifica dogmas liberais sobre insituições políticas e sociais. Dogmas que os liberais têm tradicionalmente vinculado às expectativas sobre as possibilidades humanas. Por outro lado, trata-se de socialismo não estatal, outorgando conteúdo distindo e controverso à concepção de economia de mercado adaptável a princípios socialistas, hoje ideia tida como vazia de sentido.

R.M.U. na prática

No Brasil, Mangabeira participou recentemente do governo Lula, como ministro de Assuntos Extragégicos, entre 2007 e julho de 2009. Sua preocupação maior parece ter sido a Amazônia, cujo Plano Amazônia Sustentável (PAS) delineou uma verdadeira tarefa de institucionalização do solo, contrária à posição do ministério do meio ambiente.

A política de cooperação entre as nações em desenvolvimento, principalmente entre os países do Sul parece ser importante também para ele, o que me faz pensar que a formação de um bloco denominado BRIC não é apenas uma abstração do banco Goldman Sachs. Desde o início do governo Lula, o Itamarati mudou o eixo Norte-Sul para o pleonástico Sul-Sul, ainda que Rússia esteja arriba. E é muito provável que este discurso todo tenha relação com as “alternativas de globalização” propostas por Unger.

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“Silogística aplicada à metáfora”, por Dirceu Villa

Posted in livros on novembro 9, 2008 by nitchka10
Marinetti

Marinetti

Silogística aplicada à metáfora

“O que podemos aprender com a literatura”

* * *

L’automobile c’est la guerre (Léon Daudet)
La guerra è la sola igiene del mondo (Filippo Tommaso Marinetti)
Logo, o automóvel é a única
higiene do mundo.

[Icterofagia, Dirceu Villa]

Açougue Cultural T-Bone cria pontos-biblioteca

Posted in Brasil, livros on outubro 7, 2008 by nitchka10
Açougue Anarco-cultural

Açougue Anarco-cultural

Sou um vegetariano convicto, mas não deixo de celebrar a incrível iniciativa do açougue T-bone, que resolveu juntar e emprestar livros, e como se não bastasse, espalhar bibliotecas auto-geridas em pontos de ônibus, por Brasília. Primeiro, os regulamentos :

A “nossa missão”…

Fotos: Aldo Bocchini, Site: T-Bone

Jorge Luis Borges e o Estado

Posted in livros with tags on setembro 30, 2008 by nitchka10
Borges

A visão raio-x de J.L. Borges

— Sim, creio que tendemos a exagerar a importância do Estado agora. Não só a do Estado, pois todos nós pensamos que um país depende de seu governo; e talvez os governos não sejam tão importantes, talvez o mais importante seja cada indivíduo, ou cada modo de viver. Bom, vamos tomar um exemplo que me ocorre nesse momento: vamos supor que a Suíça seja um reino e que Suécia seja uma república. Isso mudara alguma coisa? (…) Agora tendemos a pensar que é muito importante tudo isso, e talvez não o seja, e daí o erro de supor que o governo é culpado por todos os males; talvez o governo esteja tão perplexo e tão perdido como nós… como cada um de nós. É o mais provável. [Fonte: Entrevista com Oswaldo Ferrari, En diálogo II]

Ética (sic) e justiça

Posted in livros on setembro 14, 2008 by nitchka10
O último livro de Hanna Arendt

O último livro de Hannah Arendt

A palavra ética é daquelas tão desgastadas, pelos usos mais esdrúxulos que se presta, que dá até frio na barriga escutá-la. Pois talvez o frio na barriga diante da ética seja o assunto deste livro.

Ao ler A promessa da política, da Hannah Arendt, fiquei realmente contente de perceber que o fracasso da política não é algo que se possa discutir localmente, muito menos, modernamente. A filósofa alemã postula que o fracasso de todo pensamento político progressista vem de longe, uma decadência de mais de dois mil anos. Para ela, ao não conseguir convencer a cidade de que não deveria ser morto, nem os amigos, de que não deveria fugir, Sócrates demonstrou com a vida que a política nem sempre passa pelas palavras. Ou melhor, quem concluiu isso foi Platão, estarrecido diante da morte do mestre. A única possibilidade para o filósofo político, de acordo com Platão, seria justiça. É verdade: toda e qualquer discussão sobre o Estado gira em torno de uma garantia de direitos. Seja ele pequeno ou não, é dele que emana a justiça, o que nunca será questão da vontade individual de ninguém. Separei alguns trechos que talvez expliquem melhor isso:

A oposição entre verdade e opinião foi, certamente, a mais anti-socrática das conclusões que Platão tirou do julgamento de Sócrates. Ao não conseguir convencer a cidade, Sócrates havia mostrado que ela não era um lugar seguro para o filósofo, não apenas no sentido de que sua vida não está segura por causa da verdade que ele possui, mas também, e muito mais importante, no sentido do que não se pode confiar na cidade para se preservar a memória do filósofo. (49)

Uma das traduções possíveis então para esta ética grega seria a amizade, atitude que exige a vontade desinteressada das partes, independente de sua posição. Hannah Arendt coloca que o último filósofo a ecoar um discurso sobre a amizade foi Aristóteles, mas já preso numa estrutura acadêmica, circuncrito numa instituição:

Aristóteles conclui que a amizade, e não a justiça (como sustentou Platão na República, o grande diálogo sobre a justiça), parece ser o laço que une as comunidades. Para Aristóteles, a amizade é mais elevada que a justiça, porque esta já não é necessária entre amigos.

É uma interpretação radical da política, porque permite repensá-la pela amizade, que é algo provisório, direto, voluntário e temporário, o que se assemelha muito a alguns conceitos libertários — que no fundo não são mais do que pequenas afirmações que garantam a convivência sem a adesão e hierarquização.

O que Sócrates queria dizer (e que a teoria da amizade de Aristóteles explica de forma mais cabal) é que a convivência com outros começa pela convivência consigo mesmo. O ensinamento de Sócrates era: somente aquele que sabe vier consigo mesmo está apto a viver ao lado de outros.

A grande tarefa, então, não para o pensamento doutrinário, mas para uma filosofia para a vida, é separar Sócrates de Platão, ou, o que é pior, separar o Platão mais jovem, do filósofo construtor de cidades ideias. O primeiro é o do Banquete, um dos livros mais bonitos que já li. É também o de Eutífron, Críton, Hípias Maior, Hípias Menor, Lísis, Laques, Alcibíades, Cármides e Íon. Li Eutífron, Críton e Íon e posso dizer que esses são diálogos que não buscam uma conclusão. Sócrates se coloca como uma parteira, que é capaz de, com a conversa, fazer nascer das pessoas mesmo o discernimento. Também não existe nesses textos a divisão que arrasou o pensamento: teoria e prática, ou alma e mundo. Não há uma coisa ideal, não há vida após a morte. Apenas a conversa com os amigos, nos momentos mais difíceis, sobre o que ninguém sabe ao certo o que é, tudo garantido pela amizade.

O último texto escrito por Platão, qual foi? As leis.

Vandalismo de Estado

Posted in Brasil, livros on setembro 14, 2008 by nitchka10
agir sem sujar as mãos

Sabra e Shatila: agir sem sujar as mãos

O Estado é capaz de muitas coisas, mas talvez a sua principal força esteja na ausência programada, aquela cuja ação é não permitir a ação dos outros. Isto é comum na guerra. Ariel Sharon em 1982, por exemplo, isolou uma área e apenas fechou os olhos para a entrada de falangistas nos campos de refugiados palestinos. Milhares de mortos num fato que passou pela história como massacre de Sabra e Shatila. Afinal, ele nada fez diretamente.

Aplição perversa do “atuar não atuando” taoísta? Não. Pura ação programada: isolamento, dispersão, setorização e controle de fluxo de pessoas. É isso que às vezes chamam de urbanismo. A cidade como um conjunto de cercas, de bairros inteiros a pequenas esquinas, em que se permite jogar lixo, construir irregularmente, aglomerar-se uma favela, chacinas, tráfico… E isso se dá da mais sangrenta atuação dissimulada do Estado, a uma escala mínima, como por exemplo, pontos de ônibus.

O ponto de ônibus

Andando pela cidade de São Paulo, vi os pontos de ônibus, que antes eram iluminados desde a gestão da Erundina, simplesmente serem destruídos pelo “abandono”. E como funciona o vandalismo de estado em microescala urbana? Primeiro, tire a propaganda e arregace os letreiros, de modo que qualquer um perceba que aquilo está destruído; não faça mais nenhuma limpeza e corte a luz. Resultado:

Um em cada cinco pontos de ônibus em São Paulo é depredado por mês. Dos 19.300 pontos e abrigos da cidade, quase 4 mil são alvo de vandalismo. Pichação e colagem de cartazes lideram as incidências, seguidas por telhas furtadas e amassadas, lixeiras roubadas ou queimadas. O Estado vistoriou dezenas de pontos nas regiões centro, norte e sul da cidade e verificou que praticamente todos os pontos apresentam algum sinal de depredação. Na Avenida 23 de Maio, muitas placas de acrílico foram quebradas para que se roubasse a fiação de cobre ou lâmpadas fluorescentes.

Por mês, a SPTrans gasta R$ 600 mil com limpeza e manutenção de pontos de ônibus. Embora a maioria dos pontos depredados (97%) esteja nas ruas, o órgão destina pouco mais da metade dos recursos, R$ 350 mil, para a manutenção daqueles que estão em corredores. Também é aí que a Prefeitura começou, neste mês, um programa completo de recuperação, que vai até novembro e inclui recapeamento, por exemplo, com investimento de R$ 19 milhões. (Fonte)

Obviamente, a esta altura ninguém mais lembra que a prefeitura está negociando a concessão do equipamento público para publicidade. Mas daí fica a pergunta: eles abandonaram os pontos de ônibus antes de vendê-los por quê? Talvez para reafirmar que esta não é tarefa do Estado. Por outro lado, dá pra supor que as pessoas que trabalhavam com isso tenham desaparecido da prefeitura, desmobilizando antes que qualquer coisa se mobilize, seja ela privada, multinacional ou, simplesmente local — uma vassourada do camelô, ou a ação de um açogueiro que resolve colocar bibliotecas volantes em pontos de ônibus. Por fim, é um chute no saco de quem quer andar de ônibus ter que esperar um ônibus na escuridão e fica sujeito ao não-lugar. Mais um ponto para a prefeitura. O vandalismo de Estado então, antes de se tornar “mínimo”, o que não seria de todo mal, cria uma cerca e deixa quem quer que seja botar fogo lá dentro, irrita inclusive o animal político dentro da cerca. Depois discute o modelo: se será administrado por uma força estatal ou uma privada.

O modelo: “Esta [não] é tarefa do Estado”

A esquerda então, diante da “ausência” do Estado, cai matando, e promete um Estado que se encarregue de fato das coisas. É curioso que no plano do senso comum dos jornais, esquerda signifique mais Estado e direita, menos. Desde a quebra da bolsa, em 1930, qualquer economista de primeiro ano sabe que o mais interessante para a economia é a intervenção estatal direta, inclusive em capitais. O Estado americano nunca gastou tanto: fez uma guerra que custou alguns trilhões de dólares. Na semana passada até comprou dois grandes bancos que operam com o mercado imobiliário para evitar a quebra do setor…

No nosso pequeno mundo dos pontos de ônibus não há ausência, há verniz e um pouco de tinta vermelha de vez em quando. Mas nunca sairá da boca da esquerda ou da direita que o transporte público não é uma necessidade natural, absoluta. Primeiro, as pessoas deveriam morar mais perto do trabalho, viver mais a sua pequena cidade, em que o bar e os amigos, a escola, o comércio local estejam perto do seu trabalho. Criar corredores de ônibus é lindo, porque é possível ver a mão-de-obra passar de um lado por outro, se deslocando em detrimento da cidade e de seu próprio tempo, para fazer um trajeto que reduz a sua vida em trabalho-transporte-cama. Não há nada natural nisso.

Tbone

Tbone

Internet Favela

Posted in livros with tags , on agosto 17, 2008 by nitchka10

A internet é, por vezes, uma grande ilusão. Além de ser muito comercial, e cada vez mais hierarquizada, conforme os interesses dos principais sites de busca e de informação em geral, ela é superficial e excludente. Quanto à superficialidade, nenhuma novidade. Pesquisar um assunto mais complexo, um filósofo grego menor, o nome de uma cidade perdida da África… Lembro que quando lançaram o GoogleMaps, apontei direto para Timbuktu. Queria vez a cidade nos detalhes, e o que vi foi um borrão. Já em Kansas City pude ver pedestres caminhando na rua e até saber o nome de todas as pizzarias e locadoras das redondezas. A pobreza podia ser medida em pixels!

Estou lendo o maravilhoso livro de Mike Davis, Planeta Favela, e decidi então fazer um pequeno índice com o nome de algumas estruturas faveladas pelo mundo para colocar umas fotos aqui. O garimpo foi grande, e o resultado, pífio. Procure-se por exemplo “katchi abadis”, como são conhecidas as favelas de Karachi. Ou então as “villas de emergencia”, de Buenos Aires ou os “Gecekondus”, de Istambul. Por fim, termine caçando uma imagem de Korogocho, a Rocinha de Nairobi. Nem Wikipédia, Youtube… umas parcas imagens no GoogleImages. Talvez esse seja um assunto menor para a internet, embora mais de 1 bilhão de pessoas vivam em favelas.

Gecekondus, Istambul (para ser visto de lupa):

Gecekondus

Gecekondus