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Quando a universidade descobre o próprio rabo

Posted in Uncategorized on maio 10, 2009 by nitchka10

Li o artigo do José Murillo de Carvalho que me mandaram pela internet e tive a impressão de estar escutando uma piada de mau gosto. Ironias à parte, o texto é de um dos maiores historiadores brasileiros. Será dele mesmo este artigo? Bom, seja dele ou não,  o Brasil é mesmo um país de volúveis, em que até os intelectuais, ao invés de combater, têm de fazer suas graças para afetar uma intervenção, que ao final, é apenas uma gracinha a mais para esvaziar até mesmo seu espaço de trabalho. E não me refiro à universidade, mas às idéias. É jogar a criança com toda a água da ideologia barata. Pra quem quiser ler:

Como escrever a tese certa e vencer

(O Globo, 16/12/1999)

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira a um hipotético doutorando, ou doutorando, sobretudo das áreas de humanidade e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese ou na redação de trabalhos posteriores são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores … A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. No momento, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Entre os franceses, estão no alto Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Chartier, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasados, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citações obrigatórias. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm. P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis, R. Dahl, ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e H. White em história. Não perca tempo com latino-americanos ( ou africanos, asiáticos, etc. ). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico.

Brasileiros não ajudarão muito, mas também não causarão estrago se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa de tese, mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele. Se o orientador não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.

O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar ( as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam, elas têm um olhar ); descentrar ( descentre sobretudo o Estado e o sujeito ); desconstruir ( desconstrua tudo ); resgate ( resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, Deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois ); polissêmico ( nada de “mono”); outro, diferença, alteridade ( é a diferença erudita ), multiculturalismo ( isto é básico : tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor ); discurso, fala, escrita, dicção ( os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário ( tudo é imaginado, inclusive a imaginação ), cotidiano ( você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero ( essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres ); povos ( sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa ); cidadania ( personifique- a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc. ). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro.

Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.

Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.

Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda apreender a escrever como um intelectual acadêmico ( note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade ). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S. T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é “crítica” mas “criticismo”. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: “é provável” deve ser substituído por “ a evidência disponível sugere não ser improvável”. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: “os mendigos devem ter seus direitos respeitados”. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: “o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua”.

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Marta Suplicy em sabatina

Posted in Uncategorized on setembro 2, 2008 by nitchka10

Ontem de noite, assisti na TV o resumo da “sabatinada” com a canditada Marta Suplicy promovida pelo Estado de São Paulo. Uma verdadeira escolinha do professor Raimundo, em que o candidato finge que pensa e fala exatamente o que esperamos que ele fale. No caso, os temas eram “redução de impostos” (para apagar o pesadelo da “taxa do lixo” do mapa), trânsito (assunto  tomado por Kassab), CEUs (marca registrada de Marta na gestão anterior),  e Metrô (assunto do Alckmin). Que pobreza de espírito dos gostwriters de Marta! Quanto ao trânsito a solução imediata sugerida pela candidata foi “diminuir uma calçadinha ali e aqui” e “investir na CET”, a polícia dos carros. Quanto aos CEUs, Marta reafirma a sua “marca”. Os CEUs são  prédios bonitos, que sem gente e sem a participação da comunidade,  se tornaram verdadeiros disco-voadores abandonados na periferia.  E por último, o Metrô. A Marta é de longe a menos pior que os  outros candidatos. Alckmin sugere 18 mil câmeras na cidade, um  verdadeiro panóptico. Kassab mostra lindas AMAs, sua “marca”,  e gente falando de trânsito. Maluf, o autêntico, fala das obras,  para carros. Enfim, todos os candidatos falam de… carros. O  que significa exclusão social e privatização do espaço público. A lei do cão, ou melhor, do tanque 4×4.

Não tenho nada contra o Estado. Mas não suporto mais pensar que a única saída para os problemas seja por ele. Principalmente por um Estado tomado pela publicidade e pelo marketing.

Uma inocente cestinha de orgânicos…

Posted in Uncategorized on julho 22, 2008 by nitchka10

Comecei a comprar uma cestinha de orgânicos. Há alguns anos diria que isso não passa de uma frescura burguesa para aliviar um pouco a mente e agradar o estômago. Mas, a questão é complexa. Primeiro, odeio os supermercados, mas não posso explodi-los; odeio o fato de o sucesso de um supermercado ser medido com o número de lojas fechadas ao seu redor. Por trás dele há uma incrível rede de corporações deletéreas, das industriais às agrícolas. A qualidade dos alimentos é péssima, as populações mundiais pobres engordam (e os ricos emagrecem). A agricultura produz mais com os transgênicos, a despeito de qualquer discussão. Há o petróleo gasto com o transporte de alimentos e, consequentemente, a divisão internacional do trabalho, que condena regiões gigantescas a viver de commodities. Se há república de bananas, é porque muita gente compra banana importada.

Mas e a cestinha, o que tem a ver com isso? A princípio me parece a melhor forma de evitar o supermercado (e a feira, é verdade…). Tentei achar uma cestinha que venha de pequenos agricultores e, sobretudo, que não venha do outro lado do mundo! Achei o pessoal da serra da Mantiqueira.

Para além da Cestinha

Ontem achei um texto muito bom sobre o assunto na revista anarquista Réfractions (em francês). A anarquia das plantas, de Pablo Servigne. Vale a pena! É um panorama geral sobre todo o circuito possível que tem se formado como uma alternativa à agricultura convencional.

A cestinha e o MST…

Fiquei me perguntando sobre o Movimento dos Sem Terra, força legítima, mas que por vezes me parece totalitária. Tenho muita simpatia por eles, afora todo o discurso esquerdista, que serviu para eleger o presidente, e o contra-discurso conservador, que sataniza o MST. Enfim, o fato é que sei pouquíssimo. Fica a pergunta: Será possível juntar o mundo das cestinhas com o do MST, ou eles estão lutando para garantir que a soja seja produzida também pelos pequenos produtores. Pouco provável… Mais uma pesquisinha pela frente. Cabe de cara o artigo O assentamento como espaço de organização, de Danilo Augusto, que saiu no Jornal dos Sem Terra.