O exército da Cavalaria, Isaac Bábel

Posted in literatura on julho 7, 2009 by nitchka10

Nos postes estavam afixados avisos dizendo que à noite o comissário de divisão Vinográdov iria fazer um discurso sobre o Segundo Congresso do Komintern. Diante de minha janela, alguns cossacos iam fuzilar por espionagem um velho judeu de barba prateada. O velho gritava e se debatia. Então Kúdria, do setor de metralhadoras, agarrou-lhe a cabeça e segurou-a com a axila. O judeu acalmou-se e abriu as pernas. Kúdria tirou o punhal com a mão direita e degolou o velho com cuidado, para não se manchar de sangue. Depois bateu numa janela fechada.

— Quem quiser, venha apanhá-lo — disse. — Não é proibido…

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Cana-de-açúcar modificada para vingar no cerrado

Posted in Brasil, meio ambiente on junho 30, 2009 by nitchka10

Li hoje nota no Valor sobre o “lançamento” de uma nova cana-de-açúcar adaptada para o cerrado brasileiro, conquista do Instituto Agronômico de Campinhas, e me lembrei das insistentes matérias de Washington Novaes sobre o mais ameaçado dos biomas. Me lembrei também do Aziz Ab’Saber –grande geógrafo e partidário de primeira hora do governo Lula– dizendo que esse governo optou pela ignorância total sobre assuntos regionais em favor de uma política desenvolvimentista nos moldes da ditadora. E com pesar chego a algumas conclusões:

1. a função do Brasil no capitalismo global é fornecer commodities. É assim que o Brasil está crescendo e é essa a “função” do país. (Veja matéria sobre os BRICs (TheEconomist)

2. qualquer governo, local ou regional, no fundo representa o interesse do crescimento (leia-se fetiche?), e dada a “especificidade brasileira”, seremos por um bom tempo, o país da Soja, da Cana-de-Açucar e do Petróleo. Não importam as idéias dos partidos, o que vale é a manutenção das forças econômicas. Nas palavras singelas da bancada ruralista: “um terço das riquezas do país vem do agronegócio“.

3. dito isso, qualquer debate sobre o meio-ambiente é mera encenação. E o Brasil está mesmo em rota de colisão com a biodiversidade.

4. definitivamente, odeio a palavra “sustentável”, que junta toda forma de economia utópica, com cremes de beleza, atividades pseudo-ecológicas para aliviar a culpa do cidadão (fechar a torneira, separar o plástico…), que ignora as regionalidades e apresenta-se como uma razão universal “do bem”, que evita a principal questão: o que é o crescimento econômico.

Literalmente, o fim da picada:

Com o aumento e o incentivo do governo brasileiro ao mercado de biocombustíveis, cresce também o cultivo da cana-de-açúcar no país. Segundo o ISPN – Instituto Sociedade, População e Natureza – o bioma que mais sofre os impactos da expansão da lavoura da cana é o cerrado.
Também considerado o segundo bioma mais ameaçado do Brasil, o aumento do cultivo da cana-de-açúcar em áreas consideradas prioritárias compromete a biodiversidade do cerrado e a produção de alimentos… [Fonte]

Direto de Teerã

Posted in imprensa, mídia with tags , on junho 21, 2009 by nitchka10

Há anos que não sabemos o que é um correspondente na mídia impressa. Mas de fato a notícia direta não é mais broadcast. Um grande exemplo disso é o blog do Pedro Dória.

Não, não acho que Mir Hossein Mousavi seja o melhor para o Irã. Quando foi premiê, muita gente foi fuzilada no país. Mas acredito que o grupo político que ele representa, dos reformistas, é melhor para os iranianos do que os conservadores, representados por Ahmadinejad. Sim, o ideal é que não exista ditadura. Só que entre uma ditadura que permite alguma liberdade individual no modelo chinês e outra que proíbe mulheres de entrarem num estádio de futebol ou apedreja quem faz sexo antes do casamento, fico com Mousavi contra Ahmadinejad.

Soube recentemente que a função de presidente no Irã é bastante dependente do conselho religioso, e portanto a eleição não mudaria os rumos da ditadura. Mas a briga nas ruas talvez demonstre a falta de consenso.

Quando fazia faculdade ainda, lembro-me de ter recebido pelo correio, sem remetente, uma edição da constituição do Irã, em português. Como não tenho iranianos na família, não estudo farsi, não sou muçulmano nem diplomata, acredito que tenha sido uma divulgação em massa. Alguém do governo queria provar que o Irã tem também uma constituição  à la française.

ADEUS, GENERAL MOTORS POR MICHAEL MOORE

Posted in cidade, tecnologia with tags on junho 13, 2009 by nitchka10

Tradução do original em :
http://www.huffingtonpost.com/michael-moore/goodbye-gm_b_209603.html%5B1%5D

Escrevo na manhã que marca o fim da toda-poderosa General Motors.
Quando chegar a noite, o Presidente dos Estados Unidos terá
oficializado o ato: a General Motors, como conhecemos, terá chegado
ao fim.

Estou sentado aqui na cidade natal da GM, em Flint, Michigan, rodeado
por amigos e familiares cheios de ansiedade a respeito do futuro da GM
e da cidade. 40% das casas e estabelecimentos comerciais estão
abandonados por aqui. Imagine o que seria se você vivesse em uma
cidade onde uma a cada duas casas estão vazias. Como você se
sentiria?

É com triste ironia que a empresa que inventou a “obsolescência
programada” – a decisão de construir carros que se destroem em
poucos anos, assim o consumidor tem que comprar outro – tenha se
tornado ela mesma obsoleta. Ela se recusou a construir os carros que
o público queria, com baixo consumo de combustível, confortáveis e
seguros. Ah, e que não caíssem aos pedaços depois de dois anos. A
GM lutou aguerridamente contra todas as formas de regulação
ambiental e de segurança. Seus executivos arrogantemente ignoraram
os “inferiores” carros japoneses e alemães, carros que poderiam
se tornar um padrão para os compradores de automóveis. A GM ainda
lutou contra o trabalho sindicalizado, demitindo milhares de
empregados apenas para “melhorar” sua produtividade a curto
prazo.

No começo da década de 80, quando a GM estava obtendo lucros
recordes, milhares de postos de trabalho foram movidos para o México
e outros países, destruindo as vidas de dezenas de milhares de
trabalhadores americanos. A estupidez dessa política foi que, ao
eliminar a renda de tantas famílias americanas, eles eliminaram
também uma parte dos compradores de carros. A História irá
registrar esse momento da mesma maneira que registrou a Linha Maginot
francesa, ou o envenenamento do sistema de abastecimento de água dos
antigos romanos, que colocaram chumbo em seus aquedutos.

Pois estamos aqui no leito de morte da General Motors. O corpo ainda
não está frio e eu (ouso dizer) estou adorando. Não se trata do
prazer da vingança contra uma corporação que destruiu a minha
cidade natal, trazendo miséria, desestruturação familiar,
debilitação física e mental, alcoolismo e dependência por drogas
para as pessoas que cresceram junto comigo. Também não sinto prazer
sabendo que mais de 21 mil trabalhadores da GM serão informados que
eles também perderam o emprego.

Mas você, eu e o resto dos EUA somos donos de uma montadora de
carros! Eu sei, eu sei – quem no planeta Terra quer ser dono de uma
empresa de carros? Quem entre nós quer ver 50 bilhões de dólares de
impostos jogados no ralo para tentar salvar a GM? Vamos ser claros a
respeito disso: a única forma de salvar a GM é matar a GM. Salvar a
preciosa infra-estrutura industrial, no entanto, é outra conversa e
deve ser prioridade máxima.

Se permitirmos o fechamento das fábricas, perceberemos que elas
poderiam ter sido responsáveis pela construção dos sistemas de
energia alternativos que hoje tanto precisamos. E quando nos dermos
conta que a melhor forma de nos transportarmos é sobre bondes,
trens-bala e ônibus limpos, como faremos para reconstruir essa
infra-estrutura se deixamos morrer toda a nossa capacidade industrial
e a mão-de-obra especializada?

Já que a GM será “reorganizada” pelo governo federal e pela
corte de falências, aqui vai uma sugestão ao Presidente Obama, para
o bem dos trabalhadores, da GM, das comunidades e da nação. 20 anos
atrás eu fiz o filme “Roger & Eu”, onde tentava alertar as
pessoas sobre o futuro da GM. Se as estruturas de poder e os
comentaristas políticos tivessem ouvido, talvez boa parte do que
está acontecendo agora pudesse ter sido evitada. Baseado nesse
histórico, solicito que a seguinte ideia seja considerada:

1. Assim como o Presidente Roosevelt fez depois do ataque a Pearl
Harbor, o Presidente (Obama) deve dizer à nação que estamos em
guerra e que devemos imediatamente converter nossas fábricas de
carros em indústrias de transporte coletivo e veículos que usem
energia alternativa. Em 1942, depois de alguns meses, a GM
interrompeu sua produção de automóveis e adaptou suas linhas de
montagem para construir aviões, tanques e metralhadoras. Esta
conversão não levou muito tempo. Todos apoiaram. E os nazistas
foram derrotados.

Estamos agora em um tipo diferente de guerra – uma guerra que nós
travamos contra o ecossistema, conduzida pelos nossos líderes
corporativos. Essa guerra tem duas frentes. Uma está em Detroit. Os
produtos das fábricas da GM, Ford e Chrysler constituem hoje uma das
maiores armas de destruição em massa, responsável pelas mudanças
climáticas e pelo derretimento da calota polar.

As coisas que chamamos de “carros” podem ser divertidas de
dirigir, mas se assemelham a adagas espetadas no coração da Mãe
Natureza. Continuar a construir essas “coisas” irá levar à
ruína a nossa espécie e boa parte do planeta.

A outra frente desta guerra está sendo bancada pela indústria do
petróleo contra você e eu. Eles estão comprometidos a extrair todo
o petróleo localizado debaixo da terra. Eles sabem que estão
“chupando até o caroço”. E como os madeireiros que ficaram
milionários no começo do século 20, eles não estão nem aí para
as futuras gerações.
Os barões do petróleo não estão contando ao público o que sabem
ser verdade: que temos apenas mais algumas décadas de petróleo no
planeta. À medida que esse dia se aproxima, é bom estar preparado
para o surgimento de pessoas dispostas a matar e serem mortas por um
litro de gasolina.

Agora que o Presidente Obama tem o controle da GM, deve imediatamente
converter suas fábricas para novos e necessários usos.

2. Não coloque mais US$30 bilhões nos cofres da GM para que ela
continue a fabricar carros. Em vez disso, use este dinheiro para
manter a força de trabalho empregada, assim eles poderão começar a
construir os meios de transporte do século XXI.

3. Anuncie que teremos trens-bala cruzando o país em cinco anos. O
Japão está celebrando o 45o aniversário do seu primeiro trem bala
este ano. Agora eles já têm dezenas. A velocidade média: 265km/h.
Média de atrasos nos trens: 30 segundos. Eles já têm esses trens
há quase 5 décadas e nós não temos sequer um! O fato de já
existir tecnologia capaz de nos transportar de Nova Iorque até Los
Angeles em 17 horas de trem e que esta tecnologia não tenha sido
usada é algo criminoso. Vamos contratar os desempregados para
construir linhas de trem por todo o país. De Chicago até Detroit em
menos de 2 horas. De Miami a Washington em menos de 7 horas. Denver a
Dallas em 5h30. Isso pode ser feito agora.

4. Comece um programa para instalar linhas de bondes (veículos leves
sobre trilhos) em todas as nossas cidades de tamanho médio. Construa
esses trens nas fábricas da GM. E contrate mão-de-obra local para
instalar e manter esse sistema funcionando.

5. Para as pessoas nas áreas rurais não servidas pelas linhas de
bonde, faça com que as fábricas da GM construam ônibus
energeticamente eficientes e limpos.

6. Por enquanto, algumas destas fábricas podem produzir carros
híbridos ou elétricos (e suas baterias). Levará algum tempo para
que as pessoas se acostumem às novas formas de se transportar,
então se ainda teremos automóveis, que eles sejam melhores do que
os atuais. Podemos começar a construir tudo isso nos próximos meses
(não acredite em quem lhe disser que a adaptação das fábricas
levará alguns anos – isso não é verdade)

7. Transforme algumas das fábricas abandonadas da GM em espaços
para moinhos de vento, painéis solares e outras formas de energia
alternativa. Precisamos de milhares de painéis solares
imediatamente. E temos mão-de-obra capacitada a construí-los.

8. Dê incentivos fiscais àqueles que usem carros híbridos, ônibus
ou trens. Também incentive os que convertem suas casas para usar
energia alternativa.

9. Para ajudar a financiar este projeto, coloque US$ 2,00 de imposto
em cada galão de gasolina. Isso irá fazer com que mais e mais
pessoas convertam seus carros para modelos mais econômicos ou passem
a usar as novas linhas de bondes que os antigos fabricantes de
automóveis irão construir.

Bom, esse é um começo. Mas por favor, não salve a General Motors,
já que uma versão reduzida da companhia não fará nada a não ser
construir mais Chevys ou Cadillacs. Isso não é uma solução de
longo prazo.

Cem anos atrás, os fundadores da General Motors convenceram o mundo
a desistir dos cavalos e carroças por uma nova forma de locomoção.
Agora é hora de dizermos adeus ao motor a combustão. Parece que ele
nos serviu bem durante algum tempo. Nós aproveitamos restaurantes
drive-thru. Nós fizemos sexo no banco da frente – e no de trás
também. Nós assistimos filmes em cinemas drive-in, fomos à
corridas de Nascar ao redor do país e vimos o Oceano Pacífico pela
primeira vez através da janela de um carro na Highway 1. E agora
isso chegou ao fim. É um novo dia e um novo século. O Presidente
– e os sindicatos dos trabalhadores da indústria automobilística
– devem aproveitar esse momento para fazer uma bela limonada com
este limão amargo e triste.

Ontem, a último sobrevivente do Titanic morreu. Ela escapou da morte
certa naquela noite e viveu por mais 97 anos.
Nós podemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as “Flint –
Michigans” deste país. 60% da General Motors é nossa. E eu acho
que nós podemos fazer um trabalho melhor.

Michael Moore

A propriedade é um roubo?

Posted in cidade on maio 31, 2009 by nitchka10

Acho que não. Mas o grafite é muito bom. Foi feito perto da estação da Luz, território totalmente devastado e desapropriado pela prefeitura de São Paulo. A região teve recentemente a maior ocupação vertical do mundo, o Edifício Júlio Prestes, mas na guerra simbólica, o espaço público e a esperança de uma cidade plural acabaram derrotadas por um plano urbanístico que ninguém sabe muito bem o que vai ser.

A luz cega da Estação da Luz

A luz cega da Estação da Luz

A terceira onda da globalização

Posted in fatos, imprensa, meio ambiente on maio 27, 2009 by nitchka10
Cidade do Futuro

Cidade do Futuro

Globalizar é roubar. Com ou sem a ajuda dos Estados. Antes, os Estados coloniais invadiam, mas a manobra era cara e se optou pela economia aberta, em que os “agentes” se ajudam mutuamente. Mas com o advento do Estado-Corporação, o melhor negócio é abandonar a economia e deixar com que os próprios Estados se entendam, deixando que os ricos comprem imensas porções de terra das mãos de Estados pobres completamente ilegítimos.  Bem, tudo isto está na matéria do The Economist, “outsourcing’s third wave, que versa sobre fazendas gigantescas de até 700 mil hectares que países estão comprando, principalmente na África. Não sei o tamanho disso, mas diz na matéria, que as fazendas coloniais não passavam 100 mil hectares. Enfim, são países ricos e com pouca terra que querem garantir sobretudo a produção do agronegócio quando a água acabar. Os lugares preferidos: Camboja, Sudão, Mali, Moçambique… O que não se fala é que isto significa urbanização forçada em países depalperados. É o fim da cidade, que se tornará campo de refugiados.

Para um turismo on-line em campos de refugiados, ver também: http://millionsoulsaware.org/ ou http://www.unhcr.org/

Quando a universidade descobre o próprio rabo

Posted in Uncategorized on maio 10, 2009 by nitchka10

Li o artigo do José Murillo de Carvalho que me mandaram pela internet e tive a impressão de estar escutando uma piada de mau gosto. Ironias à parte, o texto é de um dos maiores historiadores brasileiros. Será dele mesmo este artigo? Bom, seja dele ou não,  o Brasil é mesmo um país de volúveis, em que até os intelectuais, ao invés de combater, têm de fazer suas graças para afetar uma intervenção, que ao final, é apenas uma gracinha a mais para esvaziar até mesmo seu espaço de trabalho. E não me refiro à universidade, mas às idéias. É jogar a criança com toda a água da ideologia barata. Pra quem quiser ler:

Como escrever a tese certa e vencer

(O Globo, 16/12/1999)

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira a um hipotético doutorando, ou doutorando, sobretudo das áreas de humanidade e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese ou na redação de trabalhos posteriores são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores … A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. No momento, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Entre os franceses, estão no alto Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Chartier, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasados, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citações obrigatórias. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm. P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis, R. Dahl, ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e H. White em história. Não perca tempo com latino-americanos ( ou africanos, asiáticos, etc. ). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico.

Brasileiros não ajudarão muito, mas também não causarão estrago se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa de tese, mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele. Se o orientador não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.

O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar ( as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam, elas têm um olhar ); descentrar ( descentre sobretudo o Estado e o sujeito ); desconstruir ( desconstrua tudo ); resgate ( resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, Deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois ); polissêmico ( nada de “mono”); outro, diferença, alteridade ( é a diferença erudita ), multiculturalismo ( isto é básico : tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor ); discurso, fala, escrita, dicção ( os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário ( tudo é imaginado, inclusive a imaginação ), cotidiano ( você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero ( essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres ); povos ( sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa ); cidadania ( personifique- a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc. ). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro.

Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.

Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.

Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda apreender a escrever como um intelectual acadêmico ( note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade ). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S. T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é “crítica” mas “criticismo”. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: “é provável” deve ser substituído por “ a evidência disponível sugere não ser improvável”. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: “os mendigos devem ter seus direitos respeitados”. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: “o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua”.